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Marcos Resende Histórias

Marcos Resende Histórias

Karisme, Nome de Mulher

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Karisme. Nome de mulher.

Assim a conheci. Mulher. E me apaixonei. Maravilha. Filha da Chuva e do Sol e da Naoite e da Estrela Perdida. Karisme Madrugada. Amada. Amiga. Ambígua. Karisme, só. E nada. Dezessete anos. Provavelmente, dezesseis. Dificilmente, quinze. Dezoito, nunca.

Me lembro que eu estava comprando jornal e era de tarde. Não havia troco. O jornaleiro saiu para trocar o dinheiro na charutaria e me deixou tomando conta da agência. Karisme entrou comendo pipoca.

― Boa tarde, moço. Já chegou o almanaque novo do Tio Patinhas?
― Não sei.
― Como, não sabe?
― Eu não trabalho aqui.
― Eu sei que você não trabalha aqui. Mas, devia saber. Uma coisa tão fácil... Saiu.

A beleza é um atrito brusco, sai fogo, assusta. A beleza paraliza, subverte, subjuga. Andei pensando muito sobre desespero e alegria. Constatei que já ia bem longe o dia em que descobri minha falta de afeto e iniciei a procura. A beleza é um jato macio de ousadia, é toda feita de mosaicos, momentos, minutos, e toma posse de tudo. Meu coração é como se fosse dois pulmões gigantescos e vazios. O ar que falta neles entraria de repente, de surpresa, e ― com ele, tudo o que me falta na vida. Fiz um diagrama de minha disponibilidade e ecnontrei um persistente branco, sem reta ou curv. A beleza é a mania de que não se abre mão, é um assovio rápido que não se ouve, mas silva, mexe, incute, repercute e fica. A beleza entra, escorrega e sai ― pronto: fugiu! Dá volta ao mundo e volta violenta como um bumerangue ou uma tempestade. Meu coração é como se fosse uma fibra filivibrante, um teatro abandonado, uma planície muito verde-escura, onde tudo ― das raízes às flores, cheirassem a desamparo, mofo, desuso.

Saí do jornaleiro com um princípio de interrogação. Mas, como saber? Atravessei a rua.   ― Quer engraxar, moço?
― Quero.
A beleza é um atrito brusco, sai fogo, assusta.
― Vou guardar o carro, porque está com defeito e pouca gasolina. Volto a pé. Me espere.
A menina do jornaleiro tinha cabelos louros e pele completamente morena e usava minissaia e era mais alta do que eu? Ou mais baixa?
― Com tinta ou sem tinta? ― pergunta o engraxate.
― Sem.

Era domingo. Ou bem parecia domingo. Ou sábado. Os bares vendiam bebidas a pessoas que, usualmete, não bebem de segunda a sexta. Gente caseira na semana inteira perambulava, fazendo avenida, procurando.
― Agora o outro ― pede o engraxate.
Fazia calor. Dezembro. Quase Natal, falta uma semana. Os bancos de jardim são daqueles que sentam primeiro. Por cansaço, vício ou preguiça.
A menina do Tio Patinhas tinha olhos verdes?
― O outro ― pede o engraxate.

O pipoqueiro, em frente ao cinema, vende pipoca mais caro do qwue os outros. Karisme comia pipoca.
― O dinheiro, moço ― o engraxate pede. E some.
O que fazer? Continuar sentado? Beber? Cinema? Há quanto tempo não vou ao cinema? Um bêbado passa no passeio, me provoca e imediatamente esquece. O ir-e-vir faz-se ver na avenida. Montão de cabeças, pernas e braços subindo. Ou descendo. Ali, um casal boda-de-prata. Aqui, a menina de sandálias (por causa do calor) buscando o que ainda não perdeu e nem sequer conhece, e nem sequer sabendo que busca. Solitários mil. Solteironas maquiadas com toda a esperança e vestidas com mais esperança ainda, aos pares, de braços dados, se oferecem, no fútingue fútil, como gado em leilão. Tudo pode acontecer aos que passam. E tudo pode se passar aos que acontecem. Melhor ficar esperando, resolvi. Ou esperando. A menina de cabelos loiros achou um absurdo eu não saber se a revista veio. A noite veio. Tem lua, gramado e estrela. Um fiado de folha me falou: Karisme. A noite caiu como se fosse uma coleção de água que pula fora da bacia inclinada e se esparrama no chão igual lençol. Menina morena, loura no cabelo, lua nos olhos, inferno na pele.

A avenida, agora, recebeu reforços. É o pesoal que estava assistindo ao futebol. Subindo ou descendo, chegando ou saindo, poluindo ou pulando, a população circula. Quilômetros. Em torno de um mesmo eixo: a praça. o povo gosta muito de andar. Vai precisar de gostar mesmo. Muito. Começou a ventar suave. A menina da revista estaria por ali? O vento venta. Inventa. Vai. Mas, volta. Não seria desagradável rever seus cabelos loiros e tirar a dúvida a respeito de seus olhos. Está. Não. Não vi. Não está. Cai uma folha da árvore. É o vento. Meu coração é como se fosse uma bola de fogo.

Gente demais, muita gente, sai do cnema através de um portão estreito. Terminou a sessão das seis. A massa humana comprime-se, empurra-se, ajeita-se e deságua na rua. Vai dordar. É o fútingue. Não, ela não poderia estar saindo do cinema. Não dava tempo. O vento é tão fraco que os penteados prevalecem. Quando chegará a revista do Tio Patinhas? Há filas para comprar entradas e Oreste Maurizio não voltou. Mas, que besteira eu ficar pensando nessa menina. O povo passa. Convictamente passeia. A fome. O vento. O vento. Eu, esperadamente só. Às vezes, uma vontade inconsciente que vem do outro lado de mim. E o vento... Que pergunta um segredo, que balança uma rosa, que procura uma fresta.

Meu coração é um jarro de barro e uma semente ausente. Meu coração é como se coabitassem, numa chaminé, um morcego de muletas e um pince-nez capenga. Se, vez por outra, um reflorescimento amarelado de palpites ameaça brotar em meu ouvido esquerdo, não desabrocha. Vadia

O povo passa e deixa o vento e deixa o medo e o coração não é de ferro. Sofre. Sofre, coração. Ontem não foi o teu dia. Mas, amanhã não será também, não. Sofre, sofre, bomba boa, palhaço de palha, omelete de vidro. Sofre, pedaço de pau, espinho capado, cometa esfiapado, cadarço destecido.
 

 Varginha, 1971

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